Redes de contas no Instagram fizeram campanha para candidatos eleitos sem constar na lista entregue ao TSE
Essas contas pedem voto, somam 2,0 milhões de seguidores e cresceram de um jeito que os anúncios pagos da campanha não explicam. Aqui está o que foi encontrado, o que ainda não se sabe e como conferir.
- 11contas não declaradas ligadas a dois candidatos eleitos por São Paulo
- 2,0 milhõesde seguidores somados nessas contas
- 163,4 milhõesde visualizações desde julho nas 14 contas de apoio não declaradas do primeiro levantamento
- 38 · 8 · 5contas de apoio não declaradas no PL, no centro e na esquerda, em 550 trios de candidatos equivalentes
O que é uma conta paralela
Todo candidato informa à Justiça Eleitoral quais são as suas redes sociais de campanha. É assim que o eleitor, os adversários e o TSE sabem onde a propaganda está sendo feita e quem responde por ela.
Uma conta paralela é um perfil que faz campanha para o candidato, com o nome dele, o número de urna e pedido de voto, mas que não está nessa lista. Elas se apresentam como "rede de apoio" ou "conta apoio".
O que a auditoria encontrou
Verificado nos dados
- As contas existem e não foram declaradas. A lista de redes que cada candidato entregou ao TSE foi comparada com as contas ativas no Instagram.
- Elas fazem propaganda eleitoral. As descrições e legendas trazem pedido de voto e número de urna.
- Elas funcionam em rede. Citam umas às outras, republicam o conteúdo da conta oficial e aparecem marcadas juntas no mesmo vídeo.
- Os anúncios pagos da campanha não explicam o alcance delas. Foram lidos 2.076 anúncios das páginas oficiais dos dois candidatos. Nenhum promove um post próprio dessas contas, e elas continuaram crescendo depois que os anúncios acabaram.
O caso mais documentado é o de Lucas Pavanato, eleito deputado federal, e Eduarda Campopiano, eleita deputada estadual, os dois pelo PL de São Paulo. Uma das contas da rede pertence a quem se apresenta, no próprio perfil, como chefe de gabinete e coordenador geral da campanha da candidata.
O volume de tela
Volume de tela é quantas vezes os vídeos de uma conta foram reproduzidos na tela de alguém. No caso de Eduarda Campopiano, as 7 contas não declaradas tiveram, juntas, mais visualizações do que a conta oficial da candidata, e mais do que todos os anúncios que a campanha pagou na Meta.
Visualizações, contadas até 8 de outubro, de vídeos publicados desde 6 de julho de 2026, e impressões estimadas dos anúncios das páginas oficiais. Visualização é cada vez que um vídeo é reproduzido, não cada pessoa nem tempo assistido: a mesma pessoa conta várias vezes.
Para comprar esse volume de exibições em anúncio, pelo preço que a própria campanha pagou, seriam necessários cerca de R$ 868 mil. É uma conta de escala, para dar ideia do tamanho; não significa que alguém pagou esse valor.
Somando todos os candidatos auditados no primeiro levantamento, as 14 contas de apoio não declaradas tiveram 163,4 milhões de visualizações, 13,6 milhões de curtidas e 482 mil comentários desde julho. O número real é maior, porque a Meta só entrega parte do histórico de algumas contas.
Duas contas, dois candidatos, o mesmo relógio
Uma conta de apoio a Eduarda Campopiano e uma conta de apoio a Lucas Pavanato publicaram, em quatro dias de setembro, sempre nos mesmos horários: 6h, 10h, 14h, 18h e 22h. Foram 18 posts de uma a poucos minutos de um post da outra. Em 25 de setembro, as duas publicaram às 22:05:48, no mesmo segundo.
Pelo ritmo normal dessas duas contas, o esperado por acaso seria uma coincidência. Entre 190 pares de contas comparados, foi o único com esse padrão.
Isso combina com uma mesma pessoa, equipe ou ferramenta publicando nas duas contas. Não prova quem é: programas de agendamento usam horários fixos, e duas pessoas diferentes podem ter escolhido a mesma configuração.
As contas seguiram crescendo depois da eleição
Os anúncios das páginas oficiais terminaram em 3 de outubro. Entre 6 de outubro e 8 de outubro, estas contas ganharam seguidores neste ritmo:
Seguidores lidos pela API oficial da Meta entre 6 de outubro e 8 de outubro. São 3 dias de leitura: mostram um ritmo, ainda não uma tendência. A conta que mais cresceu passou de 122 mil para 215 mil seguidores.
Isso acontece em todos os partidos?
Para cada candidato do PL foi escolhido um candidato equivalente do centro e um da esquerda: mesmo cargo, mesmo estado, mesmo resultado na eleição e gasto declarado parecido com impulsionamento. Os três passam pelo mesmo teste, que procura contas com variações do nome do candidato, como "apoio", "br" ou o número de urna. Até agora, 550 trios foram testados por completo, de 1.564; o levantamento continua.
Seguidores somados nas contas que se apresentam como apoio ao candidato e não constam na lista entregue ao TSE. A classificação é automática, pela descrição do perfil, e ainda não foi conferida conta a conta.
Ter alguma conta fora da declaração é comum nos três campos. A diferença está no volume de tela das contas de apoio:
Visualizações, desde 6 de julho de 2026, das contas de apoio não declaradas já coletadas em cada campo. Faltam os posts de 2 contas de apoio já encontradas. A maior parte do volume do PL vem de poucos candidatos.
Também foram testados 34 nomes de conta para dois deputados eleitos da oposição com grande audiência, André Janones (REDE) e Jones Manoel (PSOL). Nenhuma conta paralela apareceu.
O que ainda não se sabe
Os dados mostram que algo fora do comum aconteceu. Eles não mostram a causa. Há quatro explicações possíveis, e nenhuma está provada:
- não comprovadoAnúncios pagos por terceiros. Alguém de fora da campanha pode ter pago para impulsionar essas contas. Anúncios sem o rótulo de "político" só aparecem na biblioteca pública enquanto estão no ar.
- não comprovadoFavorecimento pelo sistema de recomendação. O Instagram decide o que mostrar a cada pessoa. Se ele favoreceu essas contas, só os registros internos da Meta podem dizer.
- sinais mistosSeguidores falsos. Três contas têm muitos seguidores para pouca visualização, o que é típico de base inflada. As que mais crescem têm engajamento normal, o que não combina com seguidores comprados.
- não afastadoCrescimento espontâneo. As contas republicam o conteúdo de candidatos muito populares, e parte do público pode ter migrado sozinha.
Por isso este trabalho não acusa ninguém de fraude. Ele documenta contas que deveriam estar na lista entregue ao TSE e não estão, e um alcance que os gastos declarados não explicam. Quem pode esclarecer o resto é a Meta, com os dados que só ela tem, e a Justiça Eleitoral, que pode pedi-los.
Como conferir
Tudo o que está aqui pode ser refeito por qualquer pessoa. Os dados brutos, os programas de coleta e o registro com data, hora e código de verificação de cada arquivo estão publicados.